Hoje, o metal brasileiro relembra a morte prematura de uma das figuras mais emblemáticas de nossa cena, e indiscutivelmente, a voz mais relevante deste gênero musical.

Completamos um ano da morte de Andre Matos, e ao invés de pegarmos textos prontos sobre sua história e trajetória brilhante, três colaboradores do site vieram comentar sobre alguns álbuns da carreira do maestro que foram pessoalmente relevantes para cada um deles. Simples e direto!

Textos de:
Sérgio Leopoldo, escrevendo sobre “Soldiers of Sunrise”;
Edu Escobar, escrevendo sobre o “Ritual”;
Gus Dias, escrevendo sobre o “Time To Be Free” e “In Paradisum”;

Banda – Viper
Álbum – Soldiers of Sunrise
Ano – 1987

O ano é 1987. O teatro do Colégio Rio Branco estava lotado. No palco um jovem e talentosíssimo quinteto faz um apresentação soberba e literalmente incendiária. Foi assim que os paulistanos do Viper entraram para história não apenas do rock pauleira nacional como colocaram o país no mapa internacional do heavy metal.

Era o show de lançamento de “Soldiers of Sunrise”, disco de estréia da banda é que se tornou um marco na cena musical brasileira. O Viper não só ajudou a moldar a cara de metal melódico mundial como apresentou ao mundo um dos mais carismáticos e talentosos vocalistas do mundo: o maestro André Matos. Suas linhas melódicas, com vocais agudos e interpretação visceral se tornou obrigatório para qualquer vocalista do estilo. 

O disco “Soldiers of Sunrise” até hoje é uma referência para qualquer novo aspirante a vocalista de metal dentro e fora do Brasil. Aqui temos um embrião do que viria a ser o monstro André Matos. Se no início ele chamava atenção pela fisionomia semelhante à Bruce Dickinson, petardos como Killera, Nightmares, Wings of Evil e a própria Soldiers of Sunrise, mostraram ao mundo que aquele jovem e talentoso vocalista estava apenas dando os primeiros passos para se tornar uma lenda.

Banda – Shaman
Álbum – Ritual
Ano – 2002

Após a bomba que foi o desmembramento do Angra, onde André Matos atingiu o status que sustentou ao longo de sua carreira (e sustentatá), o vocalista se juntou aos irmãos Mariutti e Confessori em uma nova banda> o Shaman.

Logo em seu álbum de estreia, o “Ritual”, a banda atinge o topo da cena, já deixando claro que não importava onde, mas Andre Matos deixaria uma significativa marca por onde passasse, dando crédito também, obviamente, ao círculo de músicos talentosos que sempre o acompanhou.

Esse também é o trabalho que tem a música que é um dos destaques da carreira do músico, “Fairy Tale”, que ao vivo soa épica com André cantando e tocando piano, em performances completamente emocionais.

“Ritual” até hoje é um dos principais materiais do power metal nacional, é absolutamente completo: tem momentos profundos de emoção, tem baladas, faixas speed metal, flerta com o prog, e da parte de Andre Matos, um registro discográfico que vem na hora mais que certa!

Banda – Andre Matos
Álbum – Time to Be Free
Ano – 2007

Após a dissolução clássica do Shaman em 2006, muito se especulava em relação aos integrantes. Andre Matos deixa a banda junto do guitarrista Hugo Mariutti, do baixista Luis Mariutti, e do tecladista Fábio Ribeiro. Todos pensavam que, assim como aconteceu com os dissidentes do Angra que formaram o Shaman em 2000, o processo se repetiria, e uma nova banda surgiria. Mas André Matos já se sentia preparado para outra empreitada.

No dia 22 de agosto de 2007, foi lançado o Time to be Free, o primeiro álbum da carreira solo do maestro. Em entrevistas na época, Andre Matos deixava claro que não estava mais com muita vontade de formar uma banda convencional devido as frustrações do passado, e que queria apostar em sua carreira solo, que já demonstrava potencial. Mesmo assim, ele deixava claro também que os integrantes de sua carreira solo não eram apenas musicistas que o acompanhavam, mas que também tinham voz e oportunidade de dar pitacos no grupo. Contudo, com uma carreira solo com seu nome estampado na capa, era óbvio que todo o peso ia cair sobre André. Então ele não podia fazer feio. E de fato não fez.

O Time to be Free é um dos álbuns mais completos da carreira de Andre Matos. Músicas épicas, rápidas, com melodias bonitas, riffs pesados, toques de música clássica, baladas, enfim, todas as marcas do maestro. Era nítido que ele carregava toda a experiência adquirida com o Viper, o Angra e o Shaman. Era um álbum criativo, bem gravado. Produzido por Roy Z, conhecido por seus trabalhos com o Bruce Dickinson, e mixado pelo velho amigo de André, Sascha Paeth.

André estava inspirado na época da composição das músicas, e sua banda, em uma excelente formação, conseguia acompanhar o gênio. Além dos irmãos Mariutti e de Fábio Ribeiro que vieram junto do Shaman, Andre convidou o guitarrista André “Zaza” Hernandes e o baterista Rafael Rosa. Rafael gravou o álbum mas não chegou a participar dos shows, então o primeiro baterista da carreira solo de Andre Matos foi Eloy Casagrande, que tinha 16 anos na época e hoje integra o Sepultura.

Definitivamente André começou sua carreira solo com o pé direito, e começou a mostrar para o mundo todo que ele, sua presença, seu carisma, seu talento e seu esforço, o tornavam maior que qualquer banda que passou. Seu nome ficou mais conhecido do que nunca mundo afora, e consequentemente, sua música.

Banda – Symfonia
Álbum – In Paradisum
Ano – 2011

O Symfonia foi um projeto/banda um tanto quanto modesto que teve a curta duração de um ano de vida. Em 2010, o guitarrista, produtor e compositor finlandês Timo Tolkki, conhecido por seu trabalho como membro fundador e principal compositor do Stratovarius, após sua saída conturbada da banda, encontrava-se em busca de uma nova empreitada. Ele já havia formado o Revolution Renaissance, que contava com o brasileiro Gus Monsanto nos vocais, mas a banda teve vida curta. E em 2010, Timo tomou conhecimento de que Andre Matos havia recentemente se mudado para a Suécia, onde vivia com sua esposa e recém-nascido filho na época. Uma vez que Suécia e Finlândia são vizinhos e como os dois já eram amigos de longa data por conta de turnês em conjunto, Timo Tolkki resolveu iniciar uma banda nova junto de André, que foi chamada de Symfonia.

O Symfonia lançou apenas um único álbum, intitulado In Paradisum, de 2010. O detalhe mais interessante do projeto é ouvir o clássico power metal finlandês nos vocais de André Matos. O álbum remete bastante ao trabalho do Stratovarius, e muitos na época não viram isso com bons olhos. É um álbum muito legal de se curtir, as letras foram todas escritas por Timo Tolkki junto de André Matos, e as músicas compostas por Timo. Embora não haja de fato, uma grande inovação no projeto, é um som coeso e bem executado, e convenhamos, a proposta de fazer esse tipo de música era nítida e clara desde o início, afinal, Tolkki é conhecido justamente por esse estilo.

Mas muitos não levaram tudo isso em conta na época. E talvez por não trazer novidades, a banda teve pouco retorno e os shows foram um tanto quanto vazios de público. E Timo Tolkki, após apenas um ano de banda, resolveu lá pro final de 2011 terminar o projeto de maneira repentina, alegando que estava insatisfeito com os resultados, e que provavelmente nunca mais gravaria um álbum na vida (vale lembrar que, em 2012 Tolkki lançou o seu projeto de Metal Opera Timo Tolkki’s Avalon). André e os demais membros ficaram desamparados com a atitude, o clima entre eles só piorou. Posteriormente, Andre Matos falou em entrevistas que via potencial no projeto, e que não compactuava com a atitude de Tolkki de terminar. Para ele, com tempo e esforço, a banda poderia ir para a frente, especialmente após o segundo álbum (que inclusive já estava marcado para iniciar as gravações), que no final nunca aconteceu.

Com mais uma banda na sua bagagem, o maestro nos deixou com um projeto curioso e interessante, que tinha potencial para muito mais caso tivesse tido a oportunidade de continuar. Vale lembrar que a banda era formada por músicos excelentes e já consagrados. Além de André nos vocais e Tolkki na guitarra, o Symfonia contava com Jari Kainulainen (Stratovarius, Masterplan) no baixo, Mikko Härkin (Sonata Arctica, Cain’s Offering) nos teclados, Uli Kusch (Helloween, Gamma Ray, Masterplan) na bateria, entretanto, Uli ficou doente e se aposentou da música após gravar o In Paradisum e antes de iniciar-se a turnê (hoje ele só grava algumas participações especiais), sendo então substituído por Alex Landenburg (At Vance, Luca Turilli’s Rhapsody, Kamelot) que cuidou da bateria nos shows.

Symfonia não é o preferido da grande maioria dos fãs da carreira do maestro André Matos, mas possui até hoje sua parcela justa de fãs. Muitos sequer sabem da existência, mas uma ouvida descompromissada para conhecer melhor pode ser algo a se levar em conta.

CD autografado que o colaborador Gus Dias tem do álbum In Paradisum.